Sales Enablement

Matriz de dores em vendas: como conectar o problema do cliente à sua solução

Aprenda a montar uma matriz de dores em vendas em 5 passos, com as três colunas (dor, implicação e solução), exemplo prático e como usar no diagnóstico.


Nenhum cliente chega numa reunião dizendo qual é a dor real dele. Ele chega com um sintoma, descreve o que está sentindo e espera que você entenda o resto.

O problema é que a maioria dos vendedores pega esse sintoma e já responde com o produto.

E aí o cliente, que não enxergou a ligação entre uma coisa e outra, sai da call dizendo que achou caro.

Um caso recente deixa isso muito claro.

Trabalhamos com uma empresa que cuida da imagem e do marketing de DJs em início de carreira. O DJ chega dizendo que toca pouco. Só que ninguém compra um presskit para tocar mais.

Ele compra quando entende que perde datas porque, quando um contratante pede material, ele não tem o que mandar.

Essa ponte entre o sintoma e a solução é o trabalho do vendedor. E a ferramenta que organiza essa ponte para o time inteiro é a matriz de dores em vendas.

O que é uma matriz de dores

A matriz de dores é um mapa que liga cada problema do seu cliente às consequências desse problema e à forma como o seu produto resolve. É uma ferramenta interna, feita para o time comercial usar no diagnóstico e na apresentação.

É uma das peças mais práticas de sales enablement, porque transforma o que os melhores vendedores fazem de cabeça em algo que o time inteiro consegue repetir.

Ela não é uma lista de funcionalidades. Se a sua matriz começa pelo que o produto faz e depois procura uma dor que encaixe, ela está de cabeça para baixo.

Ela também não é a descrição da persona. A persona diz quem é o cliente. A matriz diz o que trava esse cliente, quanto isso custa para ele e por que a sua solução muda esse cenário.

E, principalmente, ela não é um material para mostrar ao cliente. A matriz serve para o vendedor saber o que perguntar, não para ser apresentada num slide.

A dor que abre a conversa não é a dor que fecha a venda

Esse é o ponto que separa quem usa a matriz de quem só tem uma tabela bonita no playbook. Existe uma diferença enorme entre sintoma e causa.

O sintoma é o que o cliente sente e consegue descrever. No caso dos DJs, é tocar pouco, tocar em lugares que não combinam com o estilo dele ou ter a sensação de que empacou na carreira.

A causa é o que gera esse sintoma, e quase sempre o cliente não enxerga sozinho. O DJ toca pouco porque não tem portfólio, não tem presskit, não tem foto profissional e cada post dele tem uma cara diferente. Quando aparece uma oportunidade, ele perde para quem parece mais profissional.

O cliente procura você por causa do sintoma. Mas ele só compra quando entende a causa e enxerga que a sua solução ataca exatamente ela.

Se o vendedor pula essa etapa, a conta não fecha na cabeça do cliente. Ele ouve falar de identidade visual e media day, compara com o problema que trouxe, e não vê relação nenhuma. O preço, que antes era aceitável, vira caro.

Isso vale para qualquer mercado. O gestor que diz que o time não bate meta raramente vai comprar um CRM por causa disso. Ele compra quando percebe que perde oportunidades porque ninguém sabe em que etapa cada negócio está.

As três colunas da matriz: dor, implicação e solução

Toda matriz de dores tem três colunas, e a ordem importa.

A primeira é a dor ou problema, descrita de forma concreta. “Não tem material de marketing” é uma dor. “Precisa melhorar a marca” é uma conclusão sua, não uma dor do cliente.

A segunda é a implicação, que é a consequência negativa de não resolver aquela dor. É aqui que mora a venda, e é a coluna que quase todo mundo pula ou preenche de forma genérica.

A terceira é como o produto resolve, ligando cada dor a uma entrega específica e não ao produto inteiro.

A lógica é a mesma da implicação em vendas e das perguntas de implicação do SPIN Selling: o cliente só dá valor à solução quando sente o tamanho do problema.

A diferença é que a matriz organiza isso antes da call, para o time inteiro, em vez de depender da habilidade de cada vendedor.

Uma implicação bem escrita tem cena. “Quando aparece uma oportunidade, ele não tem o que enviar e perde a chance por não conseguir responder, não por falta de talento” é muito mais forte do que “perde oportunidades”.

Como construir sua matriz de dores em 5 passos

1. Comece pela persona e pelo traço do mercado

Antes de listar dores, entenda quem é o cliente e o que existe no mercado dele que muda a forma de vender. Esse traço costuma ser o que mais influencia a matriz.

No caso dos DJs, o traço era a desconfiança. É um mercado em que muita gente já levou golpe, e o cliente entra na conversa com o pé atrás. Isso mudou tudo: a matriz precisou de dores ligadas a prova e confiança, e a comunicação teve que ser simples, porque conversa técnica afastava.

2. Levante as dores com quem está na call

A pior matriz é a que nasce numa sala de reunião, sem ouvir cliente nenhum. As dores precisam vir de gravações de calls, dos motivos de perda registrados no CRM e de conversas com clientes que fecharam.

Os clientes ganhos dizem qual dor fez eles comprarem. Os perdidos mostram onde a ponte entre dor e solução não foi feita. As duas fontes são necessárias.

3. Agrupe as dores em blocos

Uma lista solta de vinte dores não ajuda ninguém a vender. Agrupe por tema, para que o vendedor consiga navegar pela matriz durante o diagnóstico.

No caso dos DJs, foram quatro blocos: material e apresentação profissional, identidade e posicionamento, execução e conhecimento, e resultado comercial. O último bloco é o que o cliente sente no bolso. Os três primeiros são as causas.

4. Escreva a implicação na língua do cliente

A implicação precisa soar como algo que o cliente diria, não como algo que o seu marketing escreveria. Se ele não se reconhece na frase, ela não funciona na call.

“Toca bem, o público curte na hora e ninguém sabe o nome dele no dia seguinte” é uma implicação que o DJ reconhece na hora. “Baixo reconhecimento de marca” não é.

5. Ligue cada dor a uma entrega específica, e assuma onde o produto não resolve

Cada linha da matriz precisa terminar numa entrega concreta. “Não tem foto profissional” se resolve com um media day, com quantidade de fotos definida por pacote. “Não sabe gravar vídeo” se resolve com gravação de set e cortes.

E tem um detalhe que pouca gente faz: deixar claro onde o produto não resolve. No caso dos DJs, um dos pacotes não incluía gravação de vídeo, e a matriz dizia isso com todas as letras. É exatamente por isso que ele custava menos. Esse tipo de honestidade evita vender o pacote errado e ajuda o vendedor a justificar a diferença de preço.

Exemplo prático de matriz de dores

Abaixo está um recorte do bloco de material e apresentação profissional, do caso que usamos ao longo do texto.

Dor ou problemaImplicaçãoComo o produto resolve
Não tem portfólioNão consegue provar o que já fez. O contratante não tem como avaliar se ele serve para a casa e, na dúvida, escolhe quem tem materialPortfólios com história, estilo e sets marcantes, direcionados para cada tipo de contratante
Não tem foto profissionalAs únicas imagens são fotos de celular tiradas por amigos. A primeira impressão do contratante é de amadorMedia day com fotos editadas, para o contratante passar a enxergar uma marca
Não tem rider técnicoQuando um contratante mais estruturado pede, ele não sabe nem o que é. Fica automaticamente de fora de eventos maioresRider técnico e artístico pronto
Toca poucoÉ a dor que ele sente no bolso. Sem datas não há renda nem evolução, e o sonho vira hobbyO pacote ataca a causa: com material pronto, ele passa a conseguir se oferecer aos contratantes

Repare que a última linha é a dor que abre a conversa, e as três primeiras são as que fecham a venda. O vendedor que entende isso não apresenta o portfólio como um item do pacote. Apresenta como a razão pela qual o cliente está perdendo datas.

Como usar a matriz de dores na call

Ter a matriz pronta não adianta se o vendedor abre a call apresentando a empresa. O uso certo segue uma sequência de três movimentos.

O primeiro é começar pelo resultado. Quantas datas ele faz por mês, onde toca, quanto cobra. É o terreno do sintoma, onde o cliente se sente confortável para falar.

O segundo é descer para a causa. A pergunta-chave no caso dos DJs é simples: “quando alguém te chama para uma data, o que você manda para a pessoa?”. A resposta, quase sempre um print de celular ou um link solto, vira o argumento inteiro da venda.

O terceiro é apresentar a solução como resposta ao que ele mesmo descreveu. Não ao que você imaginou antes da call, mas às palavras que ele usou. Quando o cliente ouve a própria dor sendo resolvida, o preço passa a ser comparado com o problema, não com o concorrente.

Esse é o papel da matriz dentro do playbook de vendas: dar ao vendedor o mapa de perguntas, não um roteiro de apresentação.

Erros comuns ao montar uma matriz de dores

O erro mais frequente é transformar a matriz num catálogo de funcionalidades com uma coluna de dor inventada ao lado. Dá para perceber pela primeira coluna: se ela foi escrita para justificar o produto, ninguém do lado do cliente se reconhece nela.

O segundo é a implicação genérica. “Perde dinheiro”, “perde tempo” e “perde oportunidades” cabem em qualquer linha de qualquer matriz, e por isso não convencem ninguém.

O terceiro é a matriz feita só pelo marketing, sem ouvir uma única call. Ela até fica bem escrita, mas descreve o cliente que a empresa gostaria de ter, não o que realmente aparece na agenda.

O quarto é nunca atualizar. O mercado muda, o produto muda e as dores mudam junto. Uma matriz que não é revisada a cada trimestre vira peça de museu no playbook.

O quinto é mostrar a matriz para o cliente. Ela é ferramenta de pergunta, não de apresentação. Quando o vendedor projeta a tabela na tela, a conversa vira palestra.

Matriz de dores e objeções andam juntas

Boa parte das objeções que aparecem no fechamento nasce de uma matriz mal usada no diagnóstico. “Não entendi como isso vai me ajudar”, “é muita coisa” e o clássico “tá caro” quase sempre significam que o cliente não enxergou a ligação entre a dor dele e a solução.

No caso dos DJs, a objeção “não entendi como logo e foto vão me fazer tocar mais” é exatamente isso. O contorno certo não é explicar o produto de novo. É voltar para a pergunta do diagnóstico e deixar o cliente chegar à conclusão sozinho.

Por isso, a matriz de dores e a matriz de objeções funcionam melhor quando são construídas juntas. Toda objeção recorrente deveria levar a uma pergunta: qual dor não ficou clara antes disso?

Conclusão

A matriz de dores não é sobre ter uma tabela completa no playbook. É sobre o time entender que o cliente chega com um sintoma e só compra quando enxerga a causa.

Quem apresenta a solução antes de o cliente sentir o custo do problema está vendendo produto.

Quem usa a matriz para fazer a ponte entre o que o cliente sente e o que ele precisa está resolvendo dor. E é por isso que o segundo vende mais, mesmo cobrando o mesmo preço.

About author

Fundador do Diário de Vendas, referência em conteúdo voltado ao desenvolvimento de profissionais de vendas no Brasil. Com experiência como Head Comercial em empresas SaaS, é apaixonado por vendas e dedica-se à criação de materiais sobre vendas consultivas.
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